Wednesday, December 16, 2009

Meu pai

Meu pai escreveu sobre meu blog:

"Demais o seu blog. Só me choca um pouco as sinceridades fortes e as pequenas agressividades. Mas acho que o blog é isso mesmo né? O reflexo da pessoa. E onde vc pode por tudo pra fora, comunicar... Mas mesmo assim, não se esqueça de colocar sempre algum conteúdo espiritual, bem positivo... uma frase do Dalai Lama... do Krishnamurti... sua mesmo... sei lá... Ah, é piegas, parece coisa de auto-ajuda... Foda-se quem não gostar! O que interessa é que funciona e as pessoas estão precisando mesmo. PAZ E AMOR, bicho! E falando em pensar demais, aprenda também a dar um tempo nos pensamentos. A folha em branco na verdade é que é a assência. Nos é que a rabiscamos o tempo todo. E evite falar palavrão, que é muito feio. Beijo."

Daí que penso várias coisas desse comentário. Vamos a alguns pensamentos:

Primeiro que o cara é foda (ops... palavrão não). O cara é demais. Tenho aquele lance de querer agradá-lo e querer que ele goste de tudo o que faço. E já sei faz tempo que todos os passos que dou, minhas escolhas, meus verbos, minhas perguntas, absolutamente tudo o que faço, faço para que ele me ame mais.
Emprego novo? Promoção? Ele certamente será o primeiro a saber. Viagem, estudos, idéias? É pra ele que digo, mesmo que seja ainda só um planejamento ou suposição.
Porque quero que ele me ame mais, né?
Porque quero valer a pena pra ele.
Porque meu irmão é músico, herdou o talento dele e conversa sobre acordes e harmonias e histórias do rock n' roll que eu não sei.
Porque minha irmã tem 15 anos e é linda. E sabe dizer "eu te amo" com muito mais facilidade que eu.
E eu sou essa coisa torta, inglesa demais, agressiva demais, travada demais.
E acho que ele já teve referências inglesas demais na vida dele pra saber que dessa gente é melhor manter distância.
Acho que ele vê minha mãe em mim. E daí acho que deve dar um treco nele. Tipo um arrepio mesmo.
Deve ser coisa de irmã do meio.

Mas o que eu diria a ele, se eu fosse menos torta, menos inglesa e menos travada, seria algo assim:

Sentimento e talento lançados de maneira tão sublime no universo da música, esse universo infinito e complexo que toca as pessoas com sensibilidade forte e suave, com alma limpa e liberta.
Sempre em busca da sua verdade, sua felicidade, disposto a abdicar de sentimentos tão intensos e verdadeiros, capaz de abrir mão de mundos construídos e estáveis.
O dom da transformação te pertence.
O orgulho que sinto por você é tão forte e uniforme e intenso que agora, olhando pra esse texto, me sinto limitada e até ridícula, tentando transformar em palavras sentimentos tão contínuos e permanentes. Mas prossigo, tentando me expressar.
Essa vida, cheia de segredos e surpresas, que nos colocou tantos obstáculos, vitórias e derrotas, acabou por nos mostrar nossa força e nosso poder em conduzir nosso destino.
Você me ensinou a conduzir meu destino.
Você construiu uma mulher.
De uma coisa informe, indistinta e vazia, vc me transformou numa mulher forte, com argumentação consistente e pensamento inteligente.
É verdade que me lancei no mundo sem limites, que quis experimentar todas as verdades do mundo e que me tornei um tanto agressiva.
Mas isso também aprendi com vc.
Porque aprendi que verdades só são verdades quando sentidas na pele, quando vivenciadas pelo espírito e sentidas com todos os nossos sentidos.
Eu te amo justamente pela educação que me deu.
Por ter aberto meus olhos para um mundo diferente, para ter uma concepção totalmente diferenciada, por me ter dado a capacidade de ser consciente e vivente da realidade (ou ilusão) que é esse mundo que vivemos.
Porque dentro dessa realidade, eu me enxerguei diferente.
Porque sinto que minha parcela de contribuição pode ser infinitamente maior do que é esperada de mim, como simples grão de areia no universo.
O que quero é justamente lançar um olhar amoroso a tudo ao meu redor e me certificar (e a todos que passarem pela minha vida) de que o mundo é mesmo bom.
Você é minha referência, meu impacto, meu primeiro pensamento a cada novo passo que a vida me proporciona.
Seu papel, seu peso, vão repercutir por todo o infinito, para mim e meus filhos, netos e bisnetos.
Sua essência permanece e permanecerá viva e dela necessito para continuar sendo a mulher que me tornei.
Porque ela é você.
Eu sou você.
E essa retórica não é musica, mas são palavras.
Também poesia, também amor e fluxo, paixão e movimento.
Captações do coração. Arte.
Minha singela tentativa. De chegar a seus pés.




(e a partir de hoje, no more palavrões! Porque, cá entre nós... é muito feio mesmo!)

Friday, December 11, 2009

Venha

Essa tua tentativa de encontrar em mim aquele tempo em que o tempo parava e as palavras não eram necessárias, já se foi.
O tempo se foi, aquele quando minha carne era dura e meu corpo te envolvia e fazia tudo acontecer sem um mínimo de esforço teu.
Quando minha boca te sorria um sorriso forçado, quase que desesperado, e você fingia não perceber.
Foi-se o tempo em que eu fingia não saber.
Vou arrancar tua essência do teu peito.
Te fazer sangrar essa verdade fraca que compõe tua frágil e insincera argumentação.
Vou te fazer sorrir forçado. Cansar tua boca de vontade de falar algo que se escute.
Te escutar com sorriso largo e genuíno interesse.
Vou querer saber mais e te confundir.
Vou te enfrentar.
Vou te fazer se arrepender de ter aberto novamente a porta pra mim.
Achou que eu fosse entrar quieta, né?
Achou que eu tomaria cuidado pra não fazer barulho.
Vou te fazer pagar a conta, contar os minutos pra me ver de novo.
Te deixar frágil e febril.
Te deixar menino e te cobrar tua mais viva masculinidade.
Vou te fazer carinho pra te enganar.
E desprezar tua fragilidade.
Vou viver da alegria da tua presença, mas só depois que você fechar a porta.
Só quando a porta fechar, sorrir.

Ou simplesmente te ver de longe, te sorrir num doce aceno e te deixar passar.

Sunday, December 06, 2009

Mario e o centro de São Paulo na UTI


Está rolando agora, na praça Roosevelt, ato de apoio a Mario Bortolotto que foi baleado ontem à noite.


O centro de São Paulo está na UTI também, um morto-vivo imundo, fedendo a mijo, intoxicado de crack.




Enquanto isso...

O descaso de Kassab com moradores de rua e ações policiais sem continuidade: a cracolândia continua cracolândia.

Já faz cinco anos que o programa de revitalização do Centro, com verbas do BID, está quase parado. A prefeitura de Kassab paga multa ao banco por não utilizar os recursos. Os albergues no Centro são desativados e o número de moradores de rua aumenta. O projeto Boracea foi enviado para o lixo e os planos para a região da Luz não foram adiante, como no resto do Centro.

Enquanto isso, Kassab inaugurou várias vezes a Nova Luz e proclamou várias vezes o fim da cracolândia.

A realidade desmente Kassab, mas o mundo virtual da classe média, alimentada pelos factoides, conforta Kassab.

Essa classe média, alimentada por boa parte da mídia, não quer saber de realidade. Prefere ela travestida.

Hoje o tema da cracolândia está em todos os jornais, mas só AGORA mostrou o descaso da prefeitura e a falta de vagas nos albergues. O Estadão e JT já tinham alertado sobre o abandono do programa de revitalização do Centro e também sobre o fechamento das vagas nos albergues.

A Folha dedicou editorial a exigir mão firme contra os usuários de drogas e Serra fez uma blitz espetacular.

O espetáculo vai continuar, afinal o que interessa é o faz de conta… e as pesquisas. LF


Saturday, December 05, 2009

Qualquer coisa pra sexta-feira

Tem uma taça de vinho aqui na minha mão, você sabe.
E era pra ser compartilhada, você sabe.
Mas essas coisas são escolhidas, você bem sabe.

Só que mais uma vez escolhi estar aqui sozinha, bem antisocial, bem esquisita.
Sem querer saber do que se passa com o mundo lá fora.

Porque fiquei resfriada, meu corpo me pediu arrego.
Cansado da tensão e pressão do mundo.
Cansando das dúvidas, da insegurança. Desse medo besta e dúvida de se estar fazendo a coisa certa, para as pessoas certas, na hora certa, com as palavras certas.
Meu corpo está cansado dos movimentos certos.
Minha garganta cansada das pausas e silêncios forçados, pelo medo da palavra errada.
Meu cérebro cansado de analisar posturas e palavras e jogos e expectativas.
Meu espírito cansado de tentar adivinhar expectativas alheias.

Por isso o vinho aqui.
Por isso a música alta e a falta de vontade de ver qualquer ser desta cidade.

Na verdade, até queria.

Queria me lançar na noite suja, entrar num lugar escuro e denso. Com pessoas escuras e tensas.
Maquiagem nos olhos pra mascarar a solidão.

Mas sou pobre. Comprei um vinho de 24 reais e isso já é o bastante para uma sexta-feira. Porque já não gosto de vinhos muito baratos e com muito corante.
Sou tipicamente um personagem da classe média brasileira.
Aquele que é pobre, tem salário só pra pagar as contas, mas assiste a filmes franceses e se imagina, um dia, caminhando pelas ruas de Montmatre, já que lá viveram Picasso, Salvador Dali e Van Gogh. Só pra rolar uma sinergia.

Mas volto aqui pra minha cidade, São Paulo.
De onde moro, ouço a música, os carros, as motos aceleradas, as vozes aflitivas das garotas alteradas. E aquele típico som de máquinas, um eco constante de movimento, de vida.
Falta descanso aqui.

Me esforço pra ouvir o silêncio, que não vem nunca. Já me acostumei. Dou risada dos bêbados que falam do fim do mundo e das pessoas que os perseguem, coitados, sem deixá-los em paz.

Mas estou sem vontade. Resfriada e cansada.
Tomando esse delicioso vinho, coloco novamente um som que me agrade. Que me faça escutar o silêncio do caos. Ao menos aqui, o caos não entra.

Doce ilusão minha.

Porque chega um mosquito que fica zumbindo na minha orelha.

Daí lembro do convite que recusei de companhia pro vinho.

Recusei mesmo, por motivos tão existenciais quando todas as minhas indagações de ser ou não ser nesse mundo de conflitos existenciais. Sou uma mulher de regras mesmo. Nunca vi mulher com tantas regras como eu.
Tem que ser assim e assado. Tem que falar assim e assado.
Tem que querer assim. E não assado.
Tem que querer.
Feelings are intense. Words are trivial.

Thursday, November 26, 2009

I did it!


Porque meu mundo...

é do lado de lá!


Nerd ou o que?


Tenho certeza de que daqui a uns anos vou lembrar deste dia e pensar:
Meu Deus, por que não atravessei a rua?






Sunday, November 22, 2009

Dissolved

O pé na terra me fez um bem danado. Sentir o gelado, úmido da terra e me envolver como numa dança. Relaxar todos os músculos, enquanto sujava meu corpo.
Foi bom.
E ainda tenho frio na barriga quando lembro do que aconteceu. Quando me sinto sozinha e percebo que a vida está caminhando, tudo indo. Não pude parar o tempo pra me acalmar.
Mas preciso seguir íntegra, inteira. Verdadeira e entregue.
A esta vida que tanto me assombra, me conquista, me intimida e intriga.
Essa, que me faz querer sorrir, sempre. Aprender, tentar.
Quero muito a plenitude da minha alma em todos os passos que eu der. Quero minha essência refletida em meu olhar.
Minha verdade em minhas escolhas.
Quero perder o medo da vida.

Foto: Fernanda Preto

Wednesday, November 18, 2009

Dor

Era um quê de esperança, era sim. Uma vontade de final feliz daqueles que a gente acredita que exista ainda, depois de tantas lições e visões e entendimentos claros e não tão românticos. Tão claros como um soco no estomago.
Mas ainda assim, ela tinha essa vontade de relaxar nos braços de seu homem. Carinhoso e delicado homem cheio de desejos de felicidade e amor puro.
Mas ele errou.
Ela errou também.
E de incontáveis erros e insistências e tentativas e erros...
O interessante da história é que ela sempre tentou poupá-lo. Sempre quis evitar seu sofrimento. Sentia-se responsável por sua alegria e queria preenchê-lo com aquela felicidade que na verdade não era dela. Mas que com esforço tentava transformar na felicidade dos dois, para o mundo.
Ela tentava poupá-lo de palavras duras. Queria que ele entendesse a vida, suas idiossincrasias. Suas verdades. Seus desejos e vazios.
Sim, ela tinha seus vazios e angústias. Ela sofria a falta de algo que nem mesmo acreditava ser necessário, já que tinha consigo a pureza e a beleza do amor.
Alimentava essa pureza e gostava de ser vista desta forma. Depois de tantos anos, tantas tentativas, tanta vontade de viver um amor de verdade sem bloqueios, sem amarras ou impedimentos.
Mas, tadinha, ela era meio torta.
Como muitas mulheres são.
Culpa dos tempo hipermodernos. Essas dúvidas e desejos de sei lá o que, de se completar mais, de querer mais, querer aquilo que não se tem. Querer que o outro saiba exatamente o que falta e haja com força e assertividade masculina.
Que tola ela foi.
Ela que tinha.
Se culpava por querer mais. Por querer aquilo que imaginava que queria. Aquilo que preencheria aquele vazio que aumentava e aumentava.
Mas ela foi forte e foi diferente.
Quis que fosse de verdade. Quis que fosse doloroso, potente, sofrido.
Quis arrancar daquele coração sensível toda possibilidade de evolução, todo desejo de mudança, toda vontade de mais.
Quis que ele desejasse mais também.
Ele, obviamente se desequilibrou.
Nunca antes havia sido tão estimulado ao novo, ao olhar diferenciado e à dor.
Sim, à dor.
Ela o conduziu à dor e à insegurança. Ao medo de não ser. Aquilo que ele com tanta verdade desejava ser.
Ele a teve tão inteira, tão entregue.
E então, desmistificou-se.
Sua tristeza nem foi tanto pelo que fez, já que havia justificativa.
Brincadeiras e desejos são perdoáveis.
Todos têm os seus, por mais obscuros que pareçam.
De tanta verdade que quis, perdeu-se em sua busca.
E se machucou ao ver a dor causada no ser amado.
Quase como uma mãe que sofre pela queda de sua criança indefesa.
E aí?
Lá no fundo da dor, o que se sente?
Medo e alívio.
Alívio por lançar a máscara ao espaço, pois é na verdade dos fatos que encontra-se a resposta buscada.
É na consciência plena e pura que se vê o chão onde se pisa.
É na dor que se opta pelo ser. Pelo querer. Pelo findar.
A dor mostra os limites, mostra as extremidades do corpo, ali onde os átomos se fundem com o mundo.
É ali, naquele preciso instante que se encontra a liberdade.
O recomeço.

Sunday, October 25, 2009

Uma noite dos meus 31 anos

Hoje me senti desorientada. No sentido de não saber pra onde ir, como interagir, como me aproximar. Antes isso era tão simples. Uma piada, uma brincadeira pra quebrar o gelo e lá estava eu, no meio da roda, protagonizando um rápido momento na vida de algumas pessoas.
Agora me sinto mais vulnerável, mais frágil.
Postulei tal comportamento como antisocial e careta, simplesmente para mascarar minha insegurança e fragilidade, como sempre.
Ainda aguardo a visita daquele que encontre isso em mim.
Com o passar dos tempos, agora com meus 31 anos, sinto o chamar do mundo. A necessidade latente de um posicionamento puro, verdadeiro para o mundo.
Ainda não o tenho, me desculpem.
Continuo me questionando e questionando.
O que acontece agora é que sinto e vejo muito mais claramente minha forma de agir e interagir com o mundo.
E me pareço agressiva, sim.
Faz tempo que me sinto assim e - juro - tento muito relaxar, oferecer mobilidade e flexibilidade a meu espírito. Realmente quero.
E cada vez mais sinto que posso ser ajudada pela presença de pessoas a meu redor que discutem, argumentam, posicionam-se de forma a me oferecer, involuntariamente,respostas tão difíceis de se obter sozinha, dada minha sólida e sóbria visão de mundo.
Hoje reencontrei a Beth, depois de três anos.
Três anos de meias conversas por MSN.
Apesar de suas dores, seus disabores, seu cansaço, ela continua leve. Seu viço é o mesmo e seu sorriso largo ainda brinda o mundo com leveza e - solta - ainda sorri.
De um amigo ouvi que sou marcante.
Passo e compasso marcantes. Mensagens fortes.
Ainda assim, quero recompor-me. Reencontrar-me com o suave da vida, com a brisa da noite e a leveza de simplesmente estar. Estar presente e envolta em uma realidade.
Realidade que mascaro, a qual me protejo, já não tão solta ou entregue quanto antes.
Não acredito que seja natural da idade. Nem da realidade vivida.
Minha realidade é aquela que construo para mim mesma, a partir de meus conceitos pré-concebidos.
Tenho medo de estar me fechando,construindo travas e mecanismos de defesa cada vez mais consistentes.
Preciso da presença desses amigos para massagearem minha alma.
Dori e Beth.
Me proporcionam um respiro profundo.
Que naturalmente me conduzem a um sorriso bom e tranquilo.
Às 04h da manhã de um dia dos meus 31 anos.

Friday, October 23, 2009

The world is pink!!




Não dá pra deixar de acreditar na beleza da vida e na delícia que é ser gente.

Wednesday, October 21, 2009

Mania de video

Que mania que estou de video, né?

Pois não resisto, achei mais um...

Esse tipo de coisa me faz ver como tem gente pensando coisas boas e simples. Coisas possíveis. Sempre ligadas ao simples, ao voltar ao que éramos, à inocência e à essência do humano.
Você não acha? As campanhas e ações na web são muito mais verdadeiras, mais reais, mais próximas. Esse video é uma ação de uma empresa de automóveis. Se em princípio pode-se pensar que é uma baita coisa estranha, pra mim é sinal de novos tempos que me deixam muito feliz.
Grandes empresas pensando no simples, no toque de humanidade que há tanto tempo se esqueceu. Daí que falo que o que se faz na web deve ser pensado, planejado. Pra causar o impacto que se quer.
A gente não quer deixar algo de bom para o mundo?
Pois então... aqui é o espaço ideal. Acho que a gente tem que ler o livro A era do vazio, sim. E fazer muita terapia... pra evitar cair no efêmero e na vaidade. Para que o que se faça, seja feito para o mundo e não pra nós mesmos.
Para que um sopro de coisa boa seja lançado ao vento, ao invés de simples alimento para a auto-estima.


Free Hugs Campaign

Uma idéia simples, um abraço e uma câmera na mão.


Saturday, October 17, 2009

Tarantino's Mind

A cada nova pesquisa, novo passeio pela web, algo de fantástico aparece pelo caminho...


Monday, September 28, 2009

Papai

som legal, com gente legal.
amadorismo do meu irmão na filmagem... rs... mas o som tá demais

Saturday, September 26, 2009

Cada mosca na sua sopa

Video extraído do blog do Luli Radfahrer, que tanto tem me inspirado a ler mais e pensar mais e questionar mais tudo aquilo que eu pensava.
Acho que minhas dúvidas e argumentos sobre a comunicação digital estão tomando um rumo mais sociológico do que midiático ou corporativo. Ainda não encontrei o fio condutor, mas de qualquer forma, o lance é mesmo 2.0. E tá todo mundo meio mosca morta nessa sopa.

Thursday, September 24, 2009

Ensaio Pitanga

Uma mulher.

Uma nova percepção. Deliciosamente inteira e entregue a si mesma, como se pela primeira vez realmente se olhasse.

Sente suas curvas, doces curvas iluminadas e captadas num delicado momento de arte e ousadia.

Posado corpo que se entrega à câmera com simplicidade. Para que capte o movimento de sua alma, de seu mais íntimo desejo de libertação.

Sua sensualidade naturalmente se aflora, pois é.

É mulher em essência, é mulher que sente... sente e

sorri.

Sorri, pois seus estímulos são seus próprios desejos, suas fantasias e seu perfume.

Onde está a sensualidade da mulher senão em seu próprio ventre? Em suas histórias inventadas, suas fantasias, no sangue em suas veias?

Em pose para a câmera, expondo seu corpo em retratos de intimidade, ela não usa máscaras. Não representa um personagem fictício.

Neste momento em que brinda à alma feminina, sente-se viva e real.

É viva.

Uma viva mulher.

Com alma e sonhos.


http://www.ensaiopitanga.com/

A idéia deste blog é falar sobre a essência feminina, sua natural sensualidade. Seus mistérios e sonhos. Expor a alma feminina através de fotos, contos, poesia. Enfim, com arte. A mesma arte com que tentamos nos descobrir, nos reinventar e nos amar. A cada dia, através do olhar e toque que lançamos ao mundo e a nós mesmas.

Sunday, August 30, 2009

Respostas

Minhas incertezas e desacertos acompanham meus passos, compoem este todo que sou eu. Meu inteiro. Meu contexto. Meu caminho.

Quando conseguirei transitar firme pelo caminho das emoções? Quando permitirei a meu ego ser apenas um instrumento de meu destino? Rico e poderoso destino conduzido pelo caminhar de meu espírito alimentado. Nutrido por minhas ações.

Até que ponto a passividade é fio condutor para a evolução do espírito? Não. Eu veementemente acredito que a nutrição do espírito é feita pela ação. Pela força dos atos, pela coragem das escolhas e pela respiração forte... Respiro profundo quando em dor.

Quando permitirei a meu corpo sentir a dor de um coração partido, de um desejo abandonado? Permitir que se vá, realmente, aquilo que pede para partir.

Quantas perguntas precisarei ainda fazer e quantas serão as respostas encontradas? Neste momento não mais me preocupo com quais serão elas, mas quantas.

Minha dúvida não são as respostas em si mesmas, posto que delas uma ação brotará. A questão é quando surgirão. Quando brotarão em meu ser e quando verei aquele lampejo de luz, aquele brilho intenso de um encontro desejado a tanto tempo, com tanta intensidade. Como um encontro de dois amantes, após longa e dolorosa espera.

Vê que o que busco é aquele sorriso? Inundada, devolvo ao mundo as mesmas perguntas, como tentativa de aliviar o peso que carrego em meu ventre.

Não aguardarei. Decidi sorrir.

Saturday, July 18, 2009

Diz a lenda que a raridade do trevo de quatro folhas o transformou em um poderoso amuleto. Os antigos magos druidas, que habitavam a Inglaterra por volta do ano 300 a.C., acreditavam que quem possuísse um desses trevos poderia absorver os poderes da floresta e a sorte dos Deuses. Ainda segundo a lenda, é preciso ganhá-lo de presente e depois presentear três pessoas.
Quando se ganha um trevo de 4 folhas, diz a tradição, a pessoa recebe votos de prosperidade, saúde e fortuna. Ainda segundo a tradição, a cada trevo que se colhe, brotam seis novos, multiplicando a sorte para todos.
O número de folhas representa um ciclo completo, como as 4 estações, as 4 fases da lua ou os 4 elementos da natureza.



No meio de tanto concreto, me faz um bem danado cultivar algumas plantinhas. Especialmente esta, com uma história tão bonita.



Friday, July 10, 2009

O que temos para hoje?

Ah, veja só!
Vamos sorrir juntos!
As estradas estão boas hoje, o caminho é curvo, mas constante.
Seu corpo se movimenta em minha direção e fica leve com a brisa que bate e te empurra para o desconhecido.
Veja, as luzes estão se apagando. O filme vai começar.
Coadjuvante de minha estória ou quer o papel principal?
Podemos negociar.
Toda minha vida é negociável, flexível. Contanto que intensa e livre. Voando por aí.
Eu vôo, sabia?
Vôo pelos cantos da minha casa, entre as músicas que vejo no ar. Elas voam comigo e cantam pra mim.
Quer cantar também?
Veja! O dia já é noite!
Agora as luzes se acendem e os monstros saem às ruas.
Porque a noite é bela e até os monstros podem ser seduzidos pela beleza.
Eu quero a noite aqui dentro. A lua toda pra mim.
Você já olhou a lua por um bom tempo? Já viu que ela olha pra você também?
Que roupa vou usar? Meu batom preferido?
Lá vou eu de novo, brincar de levar o mundo a sério. Prestar atenção às pessoas como se fosse seu último discurso. Olhar a todos nos olhos, intensamente. Até que se amedrontem de mim.
E com um doce abraço, estamos todos perdoados.

Hoje chove

Te imaginava chegando, todos os dias.
Te via ouvindo minhas músicas.
Te sentia percebendo meus movimentos e se aproximando, com delicadeza e medo.
Te escutava. Captando minhas palavras e compreendendo as entrelinhas.
Tudo isso em meus constantes poéticos delírios de amor.
Quem sabe eu finalmente perceba que o destino opera, sim, em cada movimento e pensamento meu.
Que minhas estórias e ilusões e esperanças são mentiras. Confortantes mentiras minhas.
Quem sabe eu viva o presente e ame, e fale, e grite, e aprenda que o orgulho é inútil e o ego...
Ah, o ego... tão... pequeno, tão limitador.
Quem sabe isso me fortaleça ainda mais, me faça aprender um pouco mais e me faça viver o que é real e não apenas o que é imaginação e desejo.
Porque até então, teimosa, não abria mão do que desejava, mesmo que sozinha, em pensamento.
O que quero dizer é que sentirei saudades e meu coração dói...
Porque não falei o suficiente. Não falei.
Em nossos encontros fugazes, nossos momentos de paz. Era o silêncio que reinava entre nós. Prazer e silêncio.
Fui orgulhosa. Eu, em meu trono de prepotente segurança.
Queria que você se orgulhasse de meus passos. Admirasse meu mundo. E quisesse fazer parte dele.
E agora me despeço sozinha, sem você pra abraçar e falar “boa viagem”.
Talvez essa seja a forma de me e te libertar, de dizer o adeus legítimo, após tantos outros que já disse sem querer dizer, sem sentir. Sem dizer.
Porque sempre te quis perto. Sempre te quis.
E não recebi nenhum telefonema.
E me afastei em todas as suas cruéis tentativas de aproximação.
Não nos encontramos, por algum motivo.
E vai ser triste não te imaginar chegando. Triste não te procurar pelas ruas. Triste não perguntar por você.
No entanto, você sempre esteve longe. No entanto, sempre ausente.
Eram minhas estórias imaginadas que te mantinham ligado a mim.
Ainda te acho lindo.
E caminho para a felicidade, como sempre.
E liberto meu coração, finalmente.
E hoje, ironicamente, chove.
Yes, it's time. Usually this perfect time of the night. When everybody's out, looking for something, for someone to find.
At this specific time, I just turn the lights low and play some nice music... to relax and to smile.
Because I really smile alone, you see?

And to smile with me, you should listen to this: Baby it's cold outside

I just love being here with my soul, playing with my time and my fantasies. Where I lay calmly and breath deeply, just doing all these things I like. I live to fantasize.

Looking for myself instead of looking for something else. Have so much to find within me. So much to find.

The music, the incense, the low light and myself, we fulfill the scene. Almost magic.

I love the fantasy I make of myself.

Tuesday, July 07, 2009

Se tiver coragem...

Sei que parece triste e pareço inconstante. Sei que tudo o que olho se altera. Meu olhar altera a realidade.
É a percepção diferente de tudo o que vejo que transforma o que sinto, o que quero.
A música termina e deixa no ar aquilo que não foi exposto.
Mas eu exponho.
Exponho com marcas e olhares. Exponho com lucidez e força.
Quero ver seu mundo. Observá-lo de longe e senti-lo. Não deve ser tão diferente nem tão interessante. Mas ainda assim, quero transitá-lo com liberdade e sutileza.
Só que preciso de muito. Preciso da necessidade em me querer por perto, preciso do pedido: Venha...
Porque eu vou. Eu vou porque a vida me empurra. Me leva pelos caminhos que escolho com o instinto, com a alma e com o olhar.
Meu olhar é muito mais intenso e muito menos doce do que possa imaginar.
Ele carrega uma estória densa, cheia de contra-sensos e discordâncias.
Você sabe sair do seu ritmo? Mudar de cadência?
Pois eu sei...
Eu transformo a fala, o sentido, a lógica da maneira que me convém.
Isso tudo se encontro espaço, se encontro o caminho, se o chão for de terra.
Eu vou.

Carinho da alma

Te confesso que por mais que eu queira, não te encontro nas minhas lembranças…
Não posso te tocar, não te vejo.
Não sei em que momento decidimos, ou eu decidi, quebrar o feitiço. E ele se rompeu, ou eu o rompi.
Tão pouco tempo, tão pouco de você, tão pouco de nós. Tudo tão pouco…
Você não me parece uma pessoa excepcional da qual eu me apaixonaria sem esforçar-me e não encontro nas tuas palavras, pelo menos nas que eu escutei até agora, nada que valha a pena de verdade. Mas mesmo assim você esta aí, nas nevoas desse minúsculo momento feliz, intentando ser, intentado fugir, aparecendo e desaparecendo em mensagens eletrônicas, em momentos fugazes. Que ridículo, grita minha mente, meu corpo e meus sentidos. Ridículo não poder te ocultar nesse emaranhado de novas e saudáveis e bonitas sensações que encontro agora que sou livre, que pude me livrar desses beijos tão escuros, desse polvo gigante, dessa ansiedade, de toda essa estúpida intensa loucura. Agora que sou livre dele. Desse estúpido vampiro que deixei entrar na minha vida. Quero esquecer tua sombra mas, talvez, seja ela justamente o que me mantém fiel ao meu sentido de auto preservação. Tua sombra, teu minúsculo presente, tua minúscula presença, teus minúsculos gestos, esses que não te comprometem. Não quero que você se comprometa. Eu me livrei! E isso é o mais engraçado e o que mais confunde. Porque gostaria de ter você a uma distancia fácil, algo entre o estirar dos meus braços e o fechar das minhas mãos, um segundo antes de que eu possa te aprisionar. Não quero te aprisionar, nem que você se aproxime tanto aos meus longos dedos, mas gostaria de ter você aí, onde eu possa te ver, te falar, como estou fazendo agora, sem que você se acovarde, ou se arrependa, ou se surpreenda, ou ria. Eu não sei muito bem quando foi que te mostrei meu espanto, minha vertigem a tudo o que seja estar muito perto de alguém, essa minha terrível vertigem e espanto de estar doente de amor. Talvez eu saiba... Acontece que eu não quero ficar doente outra vez, não quero me contagiar. Não posso. Será possível amar sem ficar doente? Será verdade que a gente só ama quando fica doente do outro? Eu gostaria de provar outra forma de amar. Talvez menos intensa, talvez menos dolorosa, talvez menos doente. E estou procurando. Não será com você essa nova forma, acho que já sei, mas a tua distante presença é o que me mantém fiel ao meu sentido desta busca. Me livrei!!!! Então preciso desse pouco de você, dessas tontas mensagens eletrônicas, dessas estranhas visitas insólitas, desses encontros rápidos, incoerentes e inférteis que não vão levar a nada, só a que eu me cure sozinha as feridas. Essas que eu consegui quando me entreguei, quando me deixei contagiar de loucura, possessão, ciúme e amor. Não será o mais saudável, estou de acordo, mas sei, sem lugar a dúvidas, que era amor, um amor primário, livre de filosofias e intelectualidades, um amor precário, egoísta, feito de animalidade. Essa que sempre esta aí, encurralada. Mesmo que a gente lute por escondê-la, reprimi-la, ela sempre esta aí. Eu a soltei. Quantos tiveram coragem? Eu tive. Vivi esse amor como um instinto, como uma necessidade, como uma resposta violenta a esse falso sentido comum, barato e fédido que sempre está por todos lados e em todas as pessoas, inclusive em mim. È estranho que eu tenha me deixado contagiar assim, é verdade, mas é assim, me deixei contagiar. E não me arrependo de nada, o que pode ser muito triste ou muito feliz de acordo de onde você olhar. Agora que eu sou livre e que me estou curando dessa terrível gripe. Obrigada por estar aí, absurdamente aí, completamente sem sentido aí, nesse canto da minha alma que eu não entendo, que eu quase nunca olho, que me invade de medos, de incompreensão, de solidão, de vazios, de timidez e de vergonhas. É com certeza o lugar mais frágil que tenho e você esta aí. Sabe, tudo isso é só meu e é melhor que seja assim, que você não saiba mais, que não entenda mais, que não me dê mais do que está disposto a me dar. Eu não poderia neste momento com mais. Nunca é uma palavra muito grande, tanto como sempre e já não me atrevo, como antes, a pronunciá-la tão impunemente.

(Veronica Cestac, um intenso relance de mim)

Friday, July 03, 2009

Texto que se encaixa


Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins.
Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado é o Betão, garçom, que cumprimento com um sorriso gentil, acreditando resolver aí 500 anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. “Ô Betão, traz mais uma pra gente”, eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte do Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte do Brasil, por isso vamos a bares ruins, que tem mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos tradicionais de nossa cozinha.
Se bem que nós, meio intelectuais, quando saimos com alguém pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. A gente gosta do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne de sol. Quando um de nós, meio intelectuais, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim. Porque a gente acha que o bar ruim é autêntico e o bar bom não é, como eu já disse. O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e universitários, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó, além dos garotos de cabelo bagunçado e All Star velho imundo. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico.
E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em 50% o preço de tudo. Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato. Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda, no Brasil!



(idéia de um desconhecido chamado Luciano)

Thursday, July 02, 2009

Michael Jackson e a fabricação de si mesmo

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

"Homens promovidos ao estado de produto"

Mais do que qualquer característica pontual - voz, repertório, gênero - a construção de Michael é o personagem. Seus clips provam isso. E que personagem seria esse? Por que exerce um tal magnetismo?
Podemos evocá-lo facilmente através do estilo de movimento, uma cinética toda especial, uma dança eletrizante mas aparentemente disforme, dança sem lei que faz o corpo andar para trás, amolecer que nem borracha, deslizar sem gravidade. As crianças piram: seria um Chaplin trans-figurado pela pós-modernidade?
Esse personagem que canta e dança, atrai para si os adereços mais incríveis. Na verdade ele configura o corpo como adereços - e naquele famoso sacolejo de quadris que sempre emoldura uma pegadinha radical, parece nos dizer que o próprio pênis é um adereço -, existiria irreverência maior?
Com isso, personifica a rebeldia e a 'aventura' na terra do sem-limite, sua never-land interior, seu rancho permanente, de onde nunca pôde sair. Preso a um intrincado processo de fabricação artificial de si mesmo - impedido de seguir o caminho da identificação com um pai violento - transforma essa auto-fabricação (misérias e delícias) no foco de atenção midiática.
Repete compulsivamente esse fantasma de que não há pai, de que ele se inventa sozinho - tal como seu personagem.
Isso vale tanto para a dimensão ficcional como para o MJ real, que apresenta seu filho ao mundo de maneira esdrúxula, do alto de um hotel. Aparentemente não há registro do que é um filho. Como poderia haver?
Preso nessa condição, enxerga-se/ama-se em todos os meninos, no quase delirio dessa horizontalidade fabricada, onde ele também é um deles. Mas a onipotência da fama bate de frente com o sintoma - no final das contas ele realizou o desejo do pai, tornando-se o J. mais famoso. Esse conflito deve ter exigido medidas drásticas.
Ignora a genética e fabrica-se branco - não há limite. Envolve-se, portanto, numa intricada desconstrução impossível de sua negritude, que grita por todos os seus poros, em cada jeito de corpo, em cada foto de família. Dolorosa travessia ao nada da impossibilidade de identificação.
Imaginem um MJ futuro, já no auge das manipulações genéticas... O que aprontaria? Não é justamente isso que aquele famoso clip 'black and white' anuncia, fundindo dezenas de faces?
Ora, MJ não é apenas o corpo que morreu anteontem, mas também o conjunto bilionário de todas as representações que dele fazemos. Representações vivas que se materializam em covers espalhados pelo mundo afora. Quem não gostaria de deslizar eternamente com aquele gingado?
E ao oferecer ao mundo seu processo de fabricação artificial de si mesmo como objeto de adoração, está absolutamente alinhado com a necessidade pós-moderna de desvinculação da instância terceira de um Outro - pai, pátria, religião, instituição, causas sociais e políticas, moral etc.
E está também alinhado com as boas práticas do mercado. Um mercado para o qual a auto-referência representa o caminho da maior lucratividade, pela via da globalização, que se entranha nesse declínio do Outro através da flexibilização econômica - atores sem nada acima deles que impeça a maximização das trocas.
Como sinal dos tempos, o percurso de MJ absorve diversos traços característicos da vã tentativa de remediar a carência do Outro:

a) o discurso para o bando, para a gangue (esse é o ambiente dos clips), onde se distribui a responsabilidade da 'auto-fundação';

b) o impulso para a adição (mesmo que pela via da medicalização ou do consumo), um recurso imprescindível para enfrentar depressão e dor;

c) os signos da onipotência tão comuns ao estrelato;

d) um implacável enfraquecimento do espírito crítico (não há a quem prestar contas), daí para o endividamento, um passo;

e) as novas formas sacrificiais e a manipulação do corpo

f) a negação da diferença sexual e geracional;

g) a exposição da vida íntima como artifício de mercado (prenuncia os blogs).

Do ponto de vista das mercadorias, MJ representa um ponto culminante no processo de fetichização. Foi aí que ouvi do meu amigo João Carlos Salles a famosa tirada do velho Marx sobre o futuro do capitalismo, na direção do fetiche: as mesas vão dançar...
E nós, o que faremos sem essa pirueta fantástica fingindo ser coisa nossa?

1 - Flexão pós-moderna de uma famosa crítica ao capitalismo: "homens reduzidos ao estado de produtos"
2 - Cf. Dufour, A arte de reduzir as cabeças. Editora Companhia de Freud.


Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/ Fale com Paulo Costa Lima: paulocostalima@terra.com.br

Monday, June 22, 2009

Carta a um amigo radical

Qual é o problema com o trabalho? Porque esta luta tão ferrenha? Paga-se um preço por todas as escolhas. Todas têm seu preço.
E o preço que você paga pela sua não é menos amargo do que aquele pago pelo trabalhador.
Sua escolha é respeitada. Você vive à sua maneira, da forma que lhe convém, à maneira que sua verdade define como correta.
Mas como é possível ser "artista", "livre" com todo esse preconceito no peito?
Como levantar a bandeira da anarquia sem respeitar seu irmão, que anda por outro caminho, um que ele considera correto?
Como gritar por liberdade, se você vive em amarras, em crenças inflexíveis que não te permitem aceitar as diferenças?
Como, anarquista que diz ser, você não usa as palavras TOLERÂNCIA, PERDÃO, ACEITAÇÃO, FRATERNIDADE em seu vocabulário?
Você me deixa triste.
Consigo com muita facilidade transitar por entre mundos e mundos, entendendo, me apaixonando, avaliando, interagindo com universos diferentes do meu. E de repente, me vejo cobrada, ridicularizada, repudiada por minhas escolhas.
Isso é triste, é pequeno, é dilacerante, é castrador.
É triste que "artistas" sejam tão cárceres de si mesmos.
Eu, como "proletária" que sou, uso a arte em seu estado mais puro. Na interpretação subjetiva dos espaços que vejo, nas músicas que apresento e difundo entre aqueles que amo, nos textos que escrevo às três da manhã que falam sobre minhas sensações e interações com o mundo, sem pretenções. No amor, no sorriso, no verbo doce, na entrega.
Isso pra mim é arte, isso pra mim é livre.
E meu trabalho me possibilita caminhar por mundos, mares, lugares, fazer planos, levar comigo aqueles que amo, AJUDAR aqueles cujo potencial é latente e o desejo genuíno.
Já me enganei bastante, mas não me canso de olhar a vida com delicadeza de artista, leveza no olhar e força de caráter.

Um dia um amigo me disse:
"A good way of enjoying life as in an adventure trip is:
To have a dinamic, interesting, none routine, challenging professional life”

That’s my life. Looking for pleasure and excitement in everything I do. Aware of my choice’s limitations. But still delighted will all possibilities I am offering myself.

Saturday, June 13, 2009

Banho de água fria... quer mais o quê?

Ir à praia no inverno é assim... nada óbvio. Nada de biquini e marquinha sexy. Nada de pele grudenta de óleo, queimadura ou desfile de gatas malhadas.



O lance é esse aqui... silêncio, frio e chuva. Passarinhos encolhidos (e ainda cantarolantes), montanha escondida (e ainda com sua forte e intensa presença) e o mar... e as ondas ... e o barulho ininterrupto que fazem que não cansa, não cansa.



Nesse contexto, combinam os livros, a rede, a boa companhia e o descanso. Dormir bastante. Vinhos, queijos, música. Combinam a calma, a dúvida: "E agora? O que fazer?"



Nada... agora é hora de fazer nada e desfrutar com alegria como é que se faz isso.


Saturday, May 09, 2009

A janela


Vem cá.
Chega mais perto
Sente essa cidade.
Eu caminho e não consigo deixar de sorrir.
Ouve a música
Que é mais calma. Mais lenta do que os passos daqueles que por mim passam.
Eles não me vêem.
Não vêem meus anseios e minha alegria
Alegria em vê-los. Vê-los a distancia.
Eu compreendo, vendo-os pela janela.
Olho pela janela. Aquela que me permite sentir a brisa e o cheiro do asfalto.
Me permite inalar o cheiro de urina e suor. Veneno de gente
Que caminha inquieta a procura de si, a procura de algo, qualquer coisa
Que alimente o espírito, que aquiete a alma. Que aqueça o coração.
Pela janela eu olho e sorrio. Admiro o mundo que pra mim se apresenta
Rápido, sujo. Inquieto. Barulho e luzes.
E eu da janela, lenta. Com música lenta que me faz ver tudo diferente.
Que me faz entender que aqui estou, plena, para observar
Sou uma espectadora.
E esse olhar distante, e no entanto intenso e presente, me faz compreender
Compreender que tudo é rio, tudo é água
Tudo é fluido sob meus pés.
Passa.
Amanhã serão outros e a janela será a mesma
E a brisa será a mesma
Alimentando e fazendo sorrir meu espírito
Desejoso por alguém que pare, por um instante, e olhe para dentro
E me enxergue
E sorria pra mim.



02/05/2009 01h22

Wednesday, April 15, 2009

Quadradinhos da capital

O mundo deliciosamente de cabeça para baixo. O presidente negro dos Estados Unidos falando que o ex-operário-presidente Lula é o Cara.
E eu em Brasília, o epicentro dos acontecimentos políticos de meu país.
Estive em um centro cirúrgico, tentando entender sobre olhos e equipamentos, lentes intraoculares e política também, em sua forma mais viva. Pessoas.
Deitado, um paciente ansioso e tenso. Um personagem que, na minha história, é apenas um coadjuvante mas, ao mesmo tempo, a razão fundamental por eu estar lá. Interessante isso, não?
O paciente lá estava, ávido por reencontrar-se com o brilho de seu olhar, ver sua alma novamente diante do espelho. A alma faz falta.
E eu em Brasília, nesta terra que Kafka adoraria, ao ver seu imaginário transformado em realidade.
Também Aldous Huxley adoraria. Ficaria orgulhoso em ver seu Admirável Mundo Novo representado por prédios quadradinhos e quadras quadradinhas que formam quadradinhos de hotéis e outros quadradinhos para o que quer que se precise. Tem até o quadradinho da diversão. Fiquei com vontade de me divertir por lá.
Tudo friamente organizado. A praça da cidade tem árvores organizadas em fileirinhas simétricas cheias de tédio. Tudo perfeitinho.
Nas ruas não há gente. Não há lixo. Não há vida. O movimento é motorizado e quadrado.
O céu é azul e largo, me mostrando que está lá o calor do mundo. Democrático e intenso, como se tentasse oferecer a esta cidade a alma que lhe faltou ganhar.
De tão raras que são as pessoas nas ruas, os motoristas se mostram educados e respeitosos com os poucos pedestres. Notei isso porque, ao chegar na guia, o carro que vinha já foi parando, como que por caridade, ao ver a estranha cena. Alguém, na rua.
Na segunda vez que aconteceu, fiquei bastante intrigada e, para tirar a prova, fui atravessar outra rua, sem nenhuma necessidade, só pela análise e validação de minha tese.
Pois digo, meus amigos, que o motorista parou (e nem havia farol!) sem buzinar, sem cara feia.
Sorri, em agradecimento ao meu cobaia. Não um sorriso largo. Apenas um jovial e sereno sorriso que dizia: “Eu sabia...”

Wednesday, April 01, 2009

Pra sempre



É sim uma homenagem.

Uma coisa boba talvez.

Mas pra mim, que é recheada de boas lembranças (só boas!), vem carregada de alegria e leveza.

É uma amizade que existe há 16 anos. Bem estranho quantificar o tempo desta forma, pois nos sentimos ainda com aqueles 15 anos que tínhamos quando nos conhecemos e andávamos na chuva, e falávamos da água, das estrelas, de música e arte.
Tínhamos ainda o olhar inocente que a vida mantém nas meninas que sonham, apenas sonham.
E nós sonhávamos.
Sonhávamos com viagens, príncipes encantados, meninos de óculos. Nos apaixonávamos e chorávamos. Ouvíamos blues pra sorrir. E sorríamos.
E sorríamos com a mesma facilidade com que sabíamos, a cada dia que passava, que nossa amizade era plena e segura. Estávamos lá. Sempre.
E sobrevivemos!
À tempestades, desilusões, abandonos e morte.
Sobrevivemos à todas as surpresas da vida. Até ao casamento. Até à distância.
E agora, com o olhar menos inocente, mas não menos intenso, ainda falamos de sonhos, de viagens, das estrelas, música e arte.
Ainda caminhamos pelas ruas, sorrindo, com aquele mesmo sorriso largo de alegria gratuita.
Porque é a alma quem fala, minha querida amiga.
É a alma.



On my Way


Era pra ter uma taça de vinho agora, que arranca de mim com muito mais facilidade aquelas palavras que nem eu sei de onde vêm e como tão perfeitamente expressam aquilo que sinto ao ver o mundo diante de mim.
É mágico, bem sei. E de tanto falar em magia, pareço um tanto piegas ou infantil.
Infantilidade que se funde com minha inocência (sim, ainda sou inocente) e minha deliciosa maneira de ver minha vida como um presente bom.
Veja só, como presentes nos são ofertados.
Olhe, você também vê?
Vê os carros, o caos, o barulho?
Vê silêncio e lágrimas?
E, ainda assim, consegue observar, mesmo que por um pequeno instante, o sorriso do mundo mirado em seu ventre? Ele aquece, de baixo pra cima. Sente?
Nada mais me resta, além de sorrir pra ele também.
Dentro da névoa de incertezas que permeia meus dias, das dúvidas sobre meu espaço, meu lugar, minha missão. Quando aflita em meus mais íntimos questionamentos, eis que surge uma brisa morna em meu rosto.
É mágica!
Responde às minhas perguntas com simplicidade, uma obviedade assustadora. Como foi que não pensei nisso?
Querendo ou não, temendo ou não, a vida me presenteia. E fico pasma, observando meus próprios passos me guiando por minha trilha. Eles sabem onde estão me levando.
E pra me ajudar a entender (porque sou meio lenta para esse tipo de entendimento) encontro palavras, ouço estórias. Simples comentários que tiram as reticências de qualquer frase mal terminada.
Agora, minhas frases têm ponto final. Agora sei pra onde vou. E quero ir pra lá. Ponto.

Tuesday, January 20, 2009

Um momento de leveza

Se vc fala em pré-natal, pré-cozimento ou pré-concepção está falando de uma AÇÃO que antecede outra AÇÃO. E que é natural, necessária e muitas vezes benéfica.
Quando fala de um pré-conceito, estabalece que tem uma IDÉIA antecedendo uma ANÁLISE CRÍTICA.
Isso significa que uma IDÉIA foi estabelecida, e não uma AÇÃO.
Você pode não querer andar com quem não gosta, pode não querer ouvir gêneros musicais que não gosta. Mas isso se trata de um gosto pessoal, e não de um pré-conceito. Pré-conceito seria dizer que jamais ouviria a música tradicional do Uzbequistão porque não gosta.
A IDÉIA de não gostar de uma música sem antes tê-la escutado é que torna o fato limitante e bloqueador.
Criar IDÉIAS a respeito de coisas, fatos, culturas, ideologias, raças, músicas, lugares e crenças sem antes analisá-las, tentar compreendê-las com o coração aberto é que torna o PRECONCEITO tão obscuro e triste.
O BLOQUEIO que as pessoas criam em si mesmas, que as impedem de ver o mundo e as diferenças tão ricas que nele existem, os pré-conceitos que criam a respeito do que imaginam e, principalmente, a falta de flexibilidade para compreender a existência de outras possibilidades é que torna o ser humano tão pequeno.
Eu não gosto de samba. Não gosto de pagode. Eu não sei sambar. Mas semana passada, durante um ensaio de escola de samba em minha cidade, me joguei no meio da galera do morro e saí pulando, ao som daquela bateria. Fiquei suada. Não de cansada, mas de FELICIDADE.
Pois, pela primeira vez em minha vida, consegui abandonar meus pré-conceitos, que geraram tantos bloqueios e travas e que me impediam de curtir coisas simples, mesmo que elas não fizessem parte integrante da minha vida. E me senti verdadeiramente livre, como uma criança.
E passei umas boas horas sorrindo.

Thursday, December 04, 2008

Les fenêtres sont grands

Grandes, largas e o vento sopra forte. Bagunça tudo aquilo que com tanto esforço coloquei em seu devido lugar.
Mas onde foi que guardei?
Por que tem tanta sujeira e pedaços e restos de mim escondidos em frestas, arestas, buracos? Sob as roupas e atrás dos livros.
Peças quebradas do meu jogo preferido.
E pra onde vai tudo isso?
Por que não desapareceu? Por que não voou e foi embora com aquele vento forte que bateu?
Minha energia parece diluída por esses cantos, atrás de todas as portas que fechei.

E nem é tão novidade nem tamanha a surpresa.
Somente a verdade ainda sem tomar corpo a ponto de personificar um desejo.
De zerar.
E começar tudo de novo.

_______________________________

Olho para a cadeira vazia em minha frente e realmente não tem ninguém lá.

Saturday, November 08, 2008

É preciso acreditar (sempre)

Sem dúvida, entrará para a história.
Um presidente americano negro, quem diria...

Sua ideologia, seus objetivos conquistaram e seduziram a todos. O mundo foi conquistado por esta figura carismática e as expectativas são enormes.
O mundo sorri, todas as nações o apóiam.
Prova de que não é mais aceitável a conduta dos Estados Unidos, que se posicionam como Centro Onipontente do mundo. É preciso redefinir este posicionamento e entender que são mais um entre outros. Diferentes em política e cultura, porém iguais em importância. No mundo pós moderno não há espaço para unilateralismo.

Este novo mundo é plural, multicultural, convergente.

Espero que o mundo seja realmente beneficiado por esta nova figura. Que não seja sonho. Que não sejam apenas palavras.

Que o olhar americano sobre o mundo seja de paz, inteligência e humildade.












Escultura de areia em praia na Espanha









Festa na Indonésia, após vitória de Obama.










Comemoração no Quênia, pela vitória de Obama.

Friday, November 07, 2008

Obama, o círculo completo

"O círculo completo"
Demétrio Magnoli

Pouco depois da meia noite (duas da madrugada de Brasília), ontem, a CNN proclamou a vitória de Barack Obama na Virgínia, um resultado tão extraordinário quanto previsto pelas pesquisas. Richmond, na Virgínia, foi a capital da Confederação e, após a Guerra Civil, o laboratório das Leis Jim Crow, a legislação de segregação racial nos EUA. Desde 1968, invariavelmente, uma Virgínia ofendida pela Lei dos Direitos Civis, passada pelo democrata Lyndon Johnson, ajudava a eleger presidentes republicanos.
O voto da Virgínia representa, na história dos EUA, o que a queda do Muro de Berlim representou na história da humanidade: um julgamento sobre o mal.
Fora dos EUA, anti-americanos de esquerda e de direita – há os dois tipos, que se abraçam na hostilidade compartilhada à democracia – asseguram não existir nada em jogo nas eleições americanas. Os cidadãos americanos não concordam, evidentemente, e por isso entregaram-se como há muito não se via ao jogo político que terminou ontem. Eles imaginaram estar fazendo história – e estavam certos.
Barack Obama encara três desafios e será julgado pelo que fizer com eles. O primeiro é de política externa: adaptar os EUA a uma ordem mundial que não se parece com a “Nova Ordem” da hegemonia americana proclamada por George H. Bush, o pai, no discurso de 11 de setembro de 1990 sobre o fim da Guerra Fria. George W. Bush, o filho, a partir de um outro 11 de setembro, o de 2001, engajou-se na aventura neoconservadora da “reforma do mundo” pela força das armas. O fracasso dessa aventura, junto com o colapso financeiro atual, descerram o cenário de uma ordem multipolar, na qual os EUA não são a “Nova Roma”, mas o primeiro entre pares. Há quatro anos, Obama alçou-se ao centro do palco político americano em virtude do conteúdo do discurso que pronunciou na Convenção Democrata de consagração da candidatura de John Kerry. Naquele discurso, ele delineou um programa de conciliação entre o “famoso individualismo” americano e o imperativo da coesão social, que exige não deixar ninguém para trás. Toda a sua campanha presidencial estava prefigurada ali. Obama sabe que os EUA são tanto Franklin Roosevelt quanto Ronald Reagan – e que o sonho americano depende do cuidado com o vaso de porcelana no qual convivem os dois princípios opostos mas complementares.
O segundo desafio de sua presidência é restaurar o motor do sonho americano, emperrado há sete anos, ao longo de um ciclo de expansão acelerada do PIB no qual a renda do trabalho estagnou ou retrocedeu. Ele terá que fazer isso em meio à pior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 30.
O terceiro desafio começou a ser cumprido na madrugada de ontem, quando os cidadãos americanos o escolheram para presidir a nação. A mensagem emanada das urnas, que a imprensa tem certa dificuldade para interpretar, foi: raça não existe. O povo dos EUA mirou-se no espelho e revisitou seu próprio passado. Com a atitude de um professor que risca um parágrafo errado e o corrige na margem do caderno, os eleitores produziram o esboço de um futuro pós-racial para o país. Como a crença em bruxas, fonte de tantos crimes na Idade Média, a crença em raças oriunda da ciência e da política do século 19 pode ser vencida.“Como todo mundo, eu gostaria de viver uma longa vida. A longevidade tem sua importância. Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus. E Ele me permitiu subir a montanha. E eu vi lá de cima. E enxerguei a terra prometida. Posso não chegar lá com vocês. Mas quero que saibam que nós, como um povo, chegaremos à terra prometida.” Martin Luther King pronunciou essas palavras há 40 anos, no 3 de abril de 1968, um dia antes de ser assassinado em Memphis, no Tennessee. “Nós, como um povo” não eram os negros americanos, mas todos os que acreditam na promessa de “uma união mais perfeita” inscrita na Constituição. O triunfo de Obama forma um círculo completo. A terra que King conseguiu ver está agora ao alcance da nação americana.

Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em Geografia Humana, é colunista de O Globo.

Sunday, October 05, 2008

O medo causado pela inteligência

Não há nada tão eqüitativamente distribuído no mundo como a inteligência: todos estão convencidos de que têm o suficiente
René Descartes


Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:
"Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos. O talento assusta".
E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pôde dar ao pupilo que se iniciava numa carreira difícil.

Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:
"Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma Ciência."

Quem não conhece uma pessoa medíocre, aquela que possui poucas qualidades, pouco valor, pouco merecimento e que vive a margem da razão. Apesar de parecer fácil identificá-las, não as confunda com pessoas burras ou pobres, pois existem diversos graus de mediocridade e cada um de nós já passou por alguns deles, mas existem pessoas que se perderam nesta viagem, e não evoluíram para a fase seguinte.
A prova disto está por todo o lado: Governos, empresas que não entendem de gestão de pessoas, estudantes que compram provas e trabalhos escolares, pessoas que lêem resenhas de livros e dizem tê-lo lido todo, analfabetos funcionais, aqueles que preferem assistir uma novela a ler um livro, enfim todos aqueles que direta ou indiretamente atrasam o desenvolvimento humano, seja por ignorância, seja por preguiça, seja por suas crenças, seja por teimosia, seja por dinheiro, ou seja, até mesmo por burrice.
O contato com a mediocridade gera mais mediocridade. Eles são um perigo que anda a solta, espalhando mais mediocridade, impunemente. Se afaste deles, mas se por acaso você for um deles, se esforce e evolua para o próximo estágio da vida. A única dificuldade é que geralmente medíocres não se reconhecem no espelho, por isso nunca deixam de ser medíocres.
Mas existe um teste muito simples para saber se você está evoluindo para o próximo estágio da vida: basta olhar no espelho. Se você reconhecer uma pessoa medíocre bem na sua frente, já estará a apenas um passo de transcender para a próxima fase. Agora basta querer, a escolha é sua.
Eu faço o teste freqüentemente, e algumas vezes não gosto do reflexo que o espelho me mostra.

Na sua obra "A Divina Comédia" de 1321, Dante Alighieri já apresentava um destino bem interessante para as almas das pessoas medíocres: Mal passavam pela porta do inferno, já eram barrados, não podendo nem cruzar o rio Aqueronte:"'Mestre, que ouço agora? Que gente é essa que a dor está prostrando?'".'Queixa-se dessa maneira', tornou-me, 'quem viveu com indiferença a vida, sem ter nunca merecido nem louvor nem censura ignominiosa. Faz-lhes companhia um grupo de anjos mesquinhos, que a Deus não manifestaram nem fidelidade nem rebeldia, pensando apenas em si mesmos. Foram, com desdouro, expulsos dos céus; nem o inferno profundo os acolhera, pois os anjos rebeldes se jactariam de lhes serem superiores em algo.'
'Que dor tão cruel se apodera deles e os faz gritar, urrar tão fortemente?', eu perguntei. 'A razão disso é simples', respondeu-me ele.' Não lhes é permitido esperar o descanso da morte, e, com sina tão vil e abjeta, passam a invejar qualquer outra sorte. Seus nomes passaram no mundo sem deixar marca; o perdão e a justiça divina os desdenharam. Mas não desperdicemos mais tempo com eles; olha-os e segue em frente.' "".
Fico meditando e analisando quantas e quantas pessoas tem algum conhecimento diferencial aos que a humanidade convencionou em chamar de "normal", um talento especial e estão enclausurados em sua casca de ovo, por toda uma vida, não confiam em si mesmos, em suas qualidades ou por não terem oportunidade de serem vistos. Quaisquer que sejam os motivos, nunca poderão demonstrar ao mundo o seu brilhantismo.Quantos campeões olímpicos estão adormecidos por falta de incentivo, quantos cantores (as) fantásticos estão sucateando o seu talento no lugar errado por não terem uma oportunidade, quantos executivos estão com as carreiras estagnadas por estarem na função errada, quantas obras literárias maravilhosas estão engavetadas por seus autores e nunca poderão ser apreciadas pela Humanidade, quantas pessoas estão cursando a Universidade errada, quantas pessoas têm idéias brilhantes que não são aproveitadas.
Entretanto, encontramos inúmeros exemplos de pessoas medíocres e sem talento sendo bem sucedidas. Basta ouvir um pouco de música, ver um pouco de televisão, circular pelos corredores de algumas empresas, olhar nas prateleiras das livrarias, que você as encontrará.
Quanto talento estará sendo desperdiçado diariamente por falta de autoconfiança ou incentivo.

Não sou um poço de auto-confiança e muitas vezes duvido de minhas capacidades. Mas assumo minha mediocridade com olhar otimista de quem sabe que pode, e deve, deixar uma marca por onde passa.
Não almejo ser melhor que os outros. Mas desejo profundamente que meu talento não seja desperdiçado. E assim vivo.

Wednesday, September 17, 2008

Pra conhecer o Seu Lourival

Estou em Porto Alegre. As pessoas não parecem tão alegres aqui.

Nas ruas, comércios o sorriso é tímido e o olhar distante.
Alguns segundos de foco e só.

Eu nesta cidade desconhecida: Caminho pelas ruas. Encontro um beco. Nele, homens fumando e um característico aroma no ar... Por que não aqui?

Ainda caminhando, cruzo olhares com um homem. Um rapaz. A energia é boa e sorrio. Ele sorri de volta. Por poucos segundos nossos olhos se encontram e toda a cidade perde o foco.
Ele se vai, eu também.
Meu espírito se enche de alegria quando encontra estrelas pelas ruas. E continuo sorrindo.

Procuro lugar para jantar, mas não estou no lugar certo.
Quero música, cheiro de madeira. Luz baixa e uma cerveja pra relaxar.

Um restaurante indiano me chama a atenção. Lindo.
Dentro, nada inferior a R$ 70,00.
Fora, mendigos com frio. A noite é fria.
Saio em busca de outro lugar, mais meu.

"Lourival, desde 1953".

Devo admitir que pedi uma Erdinger devido a minha ignorância quanto às dezenas de diferentes tipos de cervejas que havia no cardápio (setenta, para ser precisa). Muitas, dos mais variados países.

Nas paredes quadros e fotos de uma cidade que não mais existe. Ela mudou muito, da porta pra fora. Aqui dentro, nada tem pressa de mudar.

De certa forma me encontrei e coloco no papel algumas impressões deste lugar.
Marcado em minha memória. Por um leve toque em meu coração.

15/09/2008





Monday, September 08, 2008

O ar que respiramos

Lá de cima dá pra ver o céu. Ele é azul, pasmem!


Estava eu lá nas alturas quando vi esta imagem. E ela é bem mais feia ao vivo.


Uma placa de fumaça, sujeira e fuligem cobrindo toda a cidade. É triste, bem sei. Todos sabemos. E a respiramos diariamente.

Também lá de cima dá pra ver nosso tamanho real. Pequeno, insignificante. Somos realmente aquele grão de areia da praia. We fill it, and yet almost don't seem to be there at all.

É bom pra acalmar a alma. Esta "realidade" a que nos entregamos é demais irreal, engrandecida por nossos desejos, preocupações e referências. Engrandecemos problemas e necessidades.
Sei que é da natureza, do espítito humano elevar-se além do horizonte e buscar mais.

Na verdade, a vida é bem mais simplezinha...


Monday, August 18, 2008

Pin-ups

Elas foram usadas. Transformadas em representações do imaginário erótico masculino.
No século 20 surgiram, quando imagens de mulheres em poses sensuais passaram a ser apresentadas em calendários, pôsteres e o teatro de revista transformava mulheres em estrelas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, encontraram seu auge, estampadas em paredes de dormitórios, portas de armários e até na fuselagem de aviões, prontas para alimentar carentes soldados americanos, sedentos por um corpo de mulher.
Nada mais eficiente do que uma mulher gostosa pra apagar da mente de jovens soldados todos os horrores da guerra.
Explica-se porque, num país retrógrado e conservador como os Estados Unidos, este tipo de arte foi tão incentivado pelas autoridades militares.
De 1942 a 1946, 9 milhões de exemplares da revista Esquire são enviados gratuitamente para as tropas.
Só mesmo a Guerra para gerar preciosidades como esta.
Punhetagem política, típica do Tio Sam.

E então ela surgiu. Marilyn Monroe. A personificação do ideal da Pin-up. Nenhuma outra mulher caracterizou com tanta perfeição a realidade de uma pin-up: linda, sensual... e triste. Vista como uma peça moldada, sem personalidade e facilmente descartável.
E assim seguiu por toda a sua curta vida. Tentando ser levada a sério. E já sabemos no que deu.















Mas há que se admitir a beleza deste trabalho. Alberto Vargas era o artista da revista Esquire, nos tempos de guerra, e ficou famoso por suas “Vargas Girls” em aquarela.
Artistas como Gil Elvgren, Earl Moran, Zoe Mozert e tantos outros, deixaram uma extensa obra, digna de apreciação.
É o misterioso e fascinante universo feminino. E é arte. Lindos de se apreciar em todas as suas formas.


Friday, August 15, 2008

Marie MacGillis and the Jazzabilly Blues


Acabei de conhecer esse som. Coisas de amigos (crédito ao Jé) + MySpace. Fantástico.

O MySpace dela parece um túnel do tempo. Fotos, som, tudo lindo.

Aliás, essa coisa de pesquisa na web é muito louca. Cada vez que encontro coisa legais, encontro mais coisas mais legais.









Wednesday, August 13, 2008

Uploaded

É... faz tempo. Tempo demais. Ultrapassei todos os limites e me provei que, se a gente pára o cérebro, ele pára mesmo.

Certo, já aprendi.

E agora recomeço. Com novo foco, nova idéia e novo direcionamento para o blog.

Menos subjetividade, talvez.

Ainda não sei bem ao certo o que vai acontecer... vamos esperar pra ver no que vai dar.

Wednesday, February 06, 2008

Um pouco de lucidez

É que estou mesmo vivendo um conflito existencial pós-moderno. É essa fuligem, esse tudo que vejo e sinto, que sinto em minha pele, essa sujeira que sinto em minha pele.
Tenho tido vontade de chorar e ainda não encontrei o motivo. Não há motivo e todos os motivos do meu mundo se concentram em minha tristeza, no olhar pedindo socorro com a voz embargada.
Minha voz se calou. Tenho vivido o silêncio. Silêncio das perguntas, dos eternos questionamentos e incansáveis inconformismos.
Eu não me conformo. Não me conformo.
Eu dentro do todo e o todo me consumindo e eu me sentindo consumida e lutando contra e indo contra a maré. Mas a maré está em toda parte, corre para todos os lados, ela não é ascendente ou descendente. É fragmentada. Como tudo ao meu redor. Fragmentos de toque, fragmentos de paixão, de verdade.
Nessa maré sem ida ou vinda eu flutuo, percebendo todos os movimentos do mundo e implorando por um descanso, um alívio, um amparo.
Um simples sopro de verdade em meus ouvidos.
É que vejo tudo raso. Tudo raso. E sinto vontade de chorar e ainda não descobri por que.
Quando acordo, peço por uma gota de sentimento puro em meu café. E peço também uma pouco de entrega, uma porção de intensidade. Peço paixão.
Porque sem isso não vivo. Porque a maré me leva, nela vejo tudo e dentro do todo eu tento.
Tento entender esses fragmentos, tento juntar cacos do que sobrou da humanidade. Tento quebrar a geleira, entregando minha alma por todos os lugares onde passo. Quero minha alma escancarada e brilhante, solta e intensa, alegre e apaixonada.
Mas é frio. Lá fora é frio e raso. Pós-moderno no ar. Fragmentos, partículas, desmembrações, espetáculos, ambientes digitais, cibernética, desestetização, desdefinição, performances, Nietzsche, niilismo. Isso tudo tem me confundido.
Ainda sinto a voz embargada e os olhos meio úmidos, ainda vivos, mas não mais tão lúcidos. Ou talvez mais do que deveriam.
Talvez a tristeza não seja tristeza. Talvez seja medo.
Não, eu não tenho medo.
Inconformismo somado à dura constatação de que é assim mesmo e ponto. Pronto.
Me confundo porque nessa sopa em pedaços eu ainda busco um todo, mas mesmo o todo tem seu lado vazio. Ainda busco o humano quando deveria pensar em Megabytes. Busco o intenso quando deveria aceitar que as ideologias não servem pra mais nada. Busco o profundo quando deveria me divertir com o bizarro, me alegrar com o pink da noite paulistana.
Eu me alegro com a lua.
Mas a arte me seduz, me aponta uma resposta. Ela, que retrata tudo isso que não entendo, me seduz e me faz sorrir. Me faz sentir em casa, no lugar e tempo certos. Me tira da margem, me puxa para o centro e diz: Vem! E eu vou! Sorriso no rosto, interagindo e compreendendo, buscando e encontrando respostas não-verbais. Audíveis. Visuais. Virtuais!

Thursday, January 17, 2008

Multiplique-se

Marina Pedrosa é meu nome. Poderia ter Craddock no meio, mas devido a um rancor familiar, ficou só Pedrosa. E só. Bem simples.
Prezo pela simplicidade de ações, atitudes e posturas. Eu e meu nome estamos muito bem alinhados. E somos grandes amigos. Gosto de ser Marina.
Há quem diga que é um nome russo, o que me remete a uma lembrança nunca vivida de uma mulher loira, alta, muito magra e de cabelos curtos.
Ou a clássica "do mar". Também simples e óbvio.
Justo eu, que não sou nada óbvia.
Do mar trago em mim a fluidez, a inconstância.
Volume e silêncio.
Tormenta.
No entanto, há que se conviver com um mundo de diferenças, sem verdades absolutas. Há que se respeitar diferentes interpretações de uma mesma realidade.
E então, com muito menos paciência do que indignação, aceito em minha casa correspondências para Marina Pedroso ou Mariana Pedrosa. Ou um, ou outro.
Raramente recebo correspondências para mim mesma, o que poderia ser usado convenientemente a meu favor:
- Mariana? Não, não é pra mim, não. Deve ser a inquilina anterior. Vai pro lixo.
Mas infelizmente minha educação britânica me condicionou a acreditar que o trabalho enobrece o homem e que minha imagem perante a sociedade vale mais do que minha essência e verdade.
A verdade é que sei que sou todas elas e mais diversas cujos nomes são para mim incertos e até desconhecidos.
Recebo a todas, quase com carinho, cuidando para que sequem as que chegam em dias de chuva. E sigo, múltipla, pelos meses e caminhos de minha vida.

Saturday, January 05, 2008

Sangue

Era notório seu gosto pelo que é negro. Pelo árido e sinistro. Por onde passava, deixava sombra. Suas correntes, cruzes e roupas pretas anunciavam seu estilo. Ele não queria amigos. Não queria alegria nem sorrisos. Ele era denso, intenso. Profundo.
Seu gosto pela música se acentuava. Horas trancado em seu quarto, envolto pela inebriante fumaça de um baseado, seus cigarros. Drogas.
Buscava nela o encontro com seus desejos, que de belos não tinham nada. Eram músicas que falavam de raiva, cinzas. Ele tinha o inferno nas veias e gostava. Seus poucos amigos certamente compartilhavam do mesmo anseio e buscavam em instrumentos musicais uma forma de gritar ao mundo.
Gritar sobre o podre, sobre a hipocrisia, sobre o medo e o caos. Sobre tudo que é mascarado. Instintos animais, angústia, dor e lágrimas.
Paradoxalmente, seu amor crescia a cada dia, na mesma proporção em que sua música tomava corpo e suas composições surgiam mais profundas e assustadoras. Aquela menina de cabelos negros e longos sabia como amá-lo. Oferecia seu corpo quase como em sacrifício. Era inteira, era entregue. Não tinha vergonha de mostrar seu sangue. Sangue morto que de suas pernas escorria. Ele gemia de prazer ao sentir o sangue quente escorrendo entre seus dedos.
E os anos se passaram.
E, de alguma forma, ele teve que buscar seu sustento. A música tocada não provia aquilo de que necessitava. Era preciso ter um ofício.
E foi então que ele teve uma grande idéia: Alimentar o mundo!
Alimentaria o mundo com sua verdade. Daria às pessoas o sangue que a ele dava tanto prazer. Brilho em seus olhos! Excitação e alegria! Ele sabia! Havia encontrado uma forma de inserir sua verdade dentro das pessoas do mundo. Em suas veias, em seu ventre estaria ele. Em seus orgãos, excrementos. Lá ele viveria.
E foi quando abateu sua primeira pequena vítima, que andava sozinha pelas ruas escuras no retorno à casa após uma cansativa noite de aulas.
Não teve forças para reagir.
E, após cortá-la com delicadeza e exatidão, eliminando suas gorduras e fibras, a ofereceu ao público no açougue onde trabalhava.

Saturday, September 15, 2007

Ellen


Cara,


E de repente veio essa necessidade de escrever algo pra você. Especialmente pra você.
Pensei em mandar por email, mas não seria tão especial assim...
Não que postar uma mensagem num blog raramente visto torne as coisas mais especiais.... ou que o local de postagem torne as palavras mais especiais.... já que são igualmente virtuais.
O fato é que voltei a escrever e tem que ser pra você. Especialmente.

Esse tempo que você esteve aqui foi tão bom. Tão certo. Tão definitivo. Acho que esse foi meu erro: acreditar no definitivo.

Acreditei demais no definitivo do tempo, da nossa amizade, do sentimento. Faltou semeio.

Acreditei que estar lá seria o bastante pra ficar bem, pra ficar contente.

Vai ver é por causa da distância... durante aqueles anos, eu ficava bem por saber que nossa amizade estava viva mesmo com pouco contato, com poucas palavras.

E então, você veio. E agi como se ainda estivesse lá.

Porque estava certo. Estava pronto.

Não consigo pensar em você sem ter vontade de chorar e está doendo ainda.

Dói não ter resposta pra algumas perguntas como:

“E aquele sábado, por que não fui?”

“E aquela quarta? Por que não apareci de surpresa, só pra dar um oi?”

Esse tempo tem me deixado cada vez com mais perguntas.

Cada vez mais me questiono onde estou nessa vida toda, em todas essas atividades e deveres e rotina. Onde estou?

Nessa necessidade de construir uma estória, nessa constante carência. Nesse insolúvel desejo de ter um sorriso espontâneo no rosto, como ao concluir um longo projeto ou ver um jardim pronto, após meses de árduo semeio.

Ellen, sempre te semeei. Com a água, os desenhos, as risadas e as palavras.

E sua partida me doeu tanto.

Como quando alguém morre.

Fiquei com aquela dor da consciência de que não se disse tudo, de que os abraços poderiam ter sido outros, de que as palavras poderiam ter dito mais.

Talvez agora você entenda o que já tentei explicar.

Cara, eu queria mesmo que você estivesse ainda perto. Queria mesmo poder tomar aquela cerveja ou ir àquele show de blues que não fomos. Queria te apresentar aquele lugar que não te levei. Queria tantas coisas que jurei que faria quando você estivesse aqui, porque todas as vezes que estive nestes lugares, te via junto, sorrindo aquele sorriso de “Ah... isso é bom demais...”.

Mas dizer isso tudo é ainda pior. Esse papo é clichê demais pra ser um texto especial.

Então te peço pra me desculpar, simplesmente. E me esperar.

Porque essa vida só me ensina, a cada passo errante que dou.

E na próxima vez que nos encontrarmos, vou sorrir um sorriso tão aliviado... não vejo a hora.

Te quiero, nena.

Não foi nada especial esse texto. Faz tempo que não escrevo... estou sem adjetivos e verbos e construções frasais decentes.

Tuesday, April 17, 2007

Inspiration

That's someone who really makes me laugh. And believe in fantasy. In life.

Monday, April 09, 2007

Quer saber?

Quer saber?
Vou te contar...
Vou te contar que fico em silêncio quando é meu coração quem fala
Todo medroso, todo frágil...
Vou te contar que tudo aquilo que se vê
É verdadeiro
Mas esconde em bloqueios e frieza
Uma vontade de paz, de calma, aconchego.
Coisas do coração...
Te conto também que é cada vez melhor
E quanto melhor fica, menos tenho vontade de usar palavras
naqueles momentos que só a gente sabe.
Porque prefiro dar voz às sensações, ao olhar
Eles dizem tanto!
E fico assim, quieta, me escutando
Tentando tirar de cena meus receios.

Ouve meu silêncio...
Ele é tradução dos meus poucos momentos de serenidade.